sábado

Carta Primeira

 10 de Janeiro de 2014
Janeiro ainda mal nos cumprimentou e já vais partir.
Escrevo-te sentada, no mesmo sítio de sempre, enquanto fazes as malas. Uma parede nos separa.Dez anos nos separam. Talvez se fosse mais velha, eu pudesse ir contigo. Talvez se o fado tivesse sido mais teu amigo, tu pudesses ficar comigo. Mas ficar durante aquele espaço de tempo a que chamamos "para sempre".
E sou uma parva, sabes? Só consigo dar valor quando estou a perder o que mais amo. Se pelo menos pudesse ter-te mostrado aquilo que és para mim...
Não chove lá fora, mas a minha alma é um dilúvio.
Quero-te aqui para sempre. Fazes as malas e eu sinto-me apunhalada pela minha própria Pátria. O que doi mais? Ver-te a dobrar roupa, enquanto o teu quarto fica vazio, ou ser apunhalada?
E a casa está ruidosa e em movimento. Em mim vai nascendo o vazio e o silêncio de quem vai passar uma vida só.
Porque sem ti, mesmo acompanhada, estarei sempre só.
A música está no máximo, mas os meus ouvidos só captam o abrir e fechar das tuas gavetas. Se as trancasse, ficarias comigo?

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