É Natal e estou a morrer por não estares aqui.
Nunca pensei que fosse tão duro estar sem ti neste dia.
quarta-feira
segunda-feira
terça-feira
Se querem abanar-me, se querem desmistificar o porquê de eu ser uma pedra, se querem mesmo encontrar sentimentos em mim, peço, por favor, que tomem medidas imediatas.
Estou farta de ser (ainda que inconscientemente) posta à pressão de todos.
Estou farta de ter de ser forte e, simultaneamente, chorar feita parva para que ele tenha compaixão pela minha situação.
Ou sim ou não. Ou forte ou fraca. Não gosto de meios-termos, porque eles dão mesmo cabo do meu sistema nervoso.
Matem-me quando quiserem, que eu depois lá renasço à minha maneira, longe disto tudo - com ou sem sentimentos [isso fica ao meu critério]
Estou farta de ser (ainda que inconscientemente) posta à pressão de todos.
Estou farta de ter de ser forte e, simultaneamente, chorar feita parva para que ele tenha compaixão pela minha situação.
Ou sim ou não. Ou forte ou fraca. Não gosto de meios-termos, porque eles dão mesmo cabo do meu sistema nervoso.
Matem-me quando quiserem, que eu depois lá renasço à minha maneira, longe disto tudo - com ou sem sentimentos [isso fica ao meu critério]
sábado
Para nunca mais voltar
Por aqui fazem-se as malas e, desta vez, não sei mesmo quem irá partir.
Sabes muito bem que se eu pudesse passava a vida a viajar. Mas desta vez fazem-se as malas com a roupa toda do armário. Fazem-se as malas e leva-se tudo o que há cá em casa.
Se me dissessem, há um ano atrás, que iria deixar esta casa agora, eu não acreditava, mas diria na mesma, como sempre disse, que sairia sem problemas.
Por momentos pensei que fosse mais fácil, sabes?
Quando soube que não podiamos ficar aqui por muito mais tempo - não da mesma maneira de sempre - a minha primeira reação até nem foi má. Disse ok, o que tiver de ser. Mas agora que é tudo muito presente, tudo muito próximo, começo a entender que as paredes que construi para me proteger desta situação de merda começam a quebrar. E eu tenho medo que elas quebrem totalmente. Tenho mesmo muito medo que isso aconteça.
Se eu quebrar acho que levo todos atrás de mim. É inevitável que isso aconteça quando somos o pilar da família. E tu nunca saberás o que é ser o pilar da família enquanto não abandonares essa tendência rebelde de fugir de tudo e de todos.
Às vezes acho que aguentaria melhor se tivesse alguém com quem falar, alguém que me compreendesse por estar a passar precisamente pela mesma situação.
Não consigo entender as tuas decisões e não consigo suportar a merda da nossa família - nem sei se isto é mesmo uma família - por muito mais tempo. O que é que eu faço agora? O que é que eu posso fazer agora?
As perguntas são tantas. As dúvidas inundam-me e não tenho uma única pessoa que me ilumine.
Pensava que ia conseguir sair desta escuridão pelos meus próprios pés mas, depois de ajudar todas as pessoas, é normal que esteja demasiadamente exausta para percorrer o resto do caminho.
E hoje... hoje fazem-se malas, escondem-se coisas, queima-se um passado na tentativa de construir um futuro saudável.
Um dia disse que não ia chorar por causa desta treta mas, fraca como sou, hoje vi malas a serem feitas e não consegui aguentar.
Se algum dia leres isto, espero que entendas o porquê de deixar de gostar de fazer as malas.
Sabes muito bem que se eu pudesse passava a vida a viajar. Mas desta vez fazem-se as malas com a roupa toda do armário. Fazem-se as malas e leva-se tudo o que há cá em casa.
Se me dissessem, há um ano atrás, que iria deixar esta casa agora, eu não acreditava, mas diria na mesma, como sempre disse, que sairia sem problemas.
Por momentos pensei que fosse mais fácil, sabes?
Quando soube que não podiamos ficar aqui por muito mais tempo - não da mesma maneira de sempre - a minha primeira reação até nem foi má. Disse ok, o que tiver de ser. Mas agora que é tudo muito presente, tudo muito próximo, começo a entender que as paredes que construi para me proteger desta situação de merda começam a quebrar. E eu tenho medo que elas quebrem totalmente. Tenho mesmo muito medo que isso aconteça.
Se eu quebrar acho que levo todos atrás de mim. É inevitável que isso aconteça quando somos o pilar da família. E tu nunca saberás o que é ser o pilar da família enquanto não abandonares essa tendência rebelde de fugir de tudo e de todos.
Às vezes acho que aguentaria melhor se tivesse alguém com quem falar, alguém que me compreendesse por estar a passar precisamente pela mesma situação.
Não consigo entender as tuas decisões e não consigo suportar a merda da nossa família - nem sei se isto é mesmo uma família - por muito mais tempo. O que é que eu faço agora? O que é que eu posso fazer agora?
As perguntas são tantas. As dúvidas inundam-me e não tenho uma única pessoa que me ilumine.
Pensava que ia conseguir sair desta escuridão pelos meus próprios pés mas, depois de ajudar todas as pessoas, é normal que esteja demasiadamente exausta para percorrer o resto do caminho.
E hoje... hoje fazem-se malas, escondem-se coisas, queima-se um passado na tentativa de construir um futuro saudável.
Um dia disse que não ia chorar por causa desta treta mas, fraca como sou, hoje vi malas a serem feitas e não consegui aguentar.
Se algum dia leres isto, espero que entendas o porquê de deixar de gostar de fazer as malas.
quarta-feira
sábado
Chegas a casa, olhas-me, e eu sinto que travo esta batalha sozinha.
Antes de voltares eu acreditava que tudo isto seria totalmente diferente.
Mas não entendo, acreditas? Não entendo porque quebraste as tuas promessas. No início éramos eu e tu, tu e eu. E ninguém nos ia conseguir separar ou derrubar, lembras-te?
E hoje... hoje sento-me na tua cama vazia, à espera que chegues novamente à casa onde sempre vivemos, mas não tenho absolutamente um único fio de esperança em mim. Porque, há meses atrás, juraste que seria tudo muito mais fácil se nos uníssemos, mas, em menos de um dia, esqueceste todas as tuas palavras de força. Custa-me a engolir isto porque tu sabes, melhor do que ninguém, que ela precisa de todo o nosso apoio, mas mesmo assim continuas a fazer de conta que esta casa, aquela onde vivemos desde sempre, continua a ser a mesma que deixaste há 8 meses atrás.
É difícil, para ti, ignorar as palavras doces que ultimamente têm aparecido naquele que (supostamente) devíamos amar acima de tudo? Para mim também é. Estabeleço com ele a mesma ligação que tu, se calhar mais fortemente, e mesmo assim, apesar do carinho que lhe tenho, esforço-me para cumprir o papel que lhe jurei [a ela] quando esta merda começou. E dói-me. Arranha-me. Corrói-me. Rasga-me. Mas não desisto. Não desistirei nunca.
Imaginas o que seria da nossa vida se todos fossemos desistindo aos poucos? Eu acho que tens medo de imaginar e é precisamente por isso que continuas a ser a mesma pessoa com ele. É por isso que cumpres o teu papel de filho exactamente da mesma maneira de sempre.
Estou cheia de medo do futuro. Estou, quase que literalmente, a morrer de pavor. Mas, enquanto eu viver, não me verás a baixar as armas nem a assumir esta guerra como perdida.
Devias fazer o mesmo. E eu gostava mesmo que fizesses o mesmo.
Os irmãos mais velhos costumam ser o exemplo a seguir, mas acho que, desta vez, não faria mal se invertêssemos os papeis.
E, apesar de tudo (e chama-me ingénua, se quiseres), deito-me a pensar que vais regressar às tuas origens e vais conseguir vencer o teu medo de o encarar. Porque, afinal, é apenas isso que te impede, não é? O medo.
Prepara-te porque a tempestade será longa e o ponto onde nos encontramos está ainda no momento mais ameno. Eu sei que vais continuar a falar e a prometer. E a voltar a falar e prometer. E sempre mais. Mais palavras, mais juras, mais planos. Às vezes sou bastante idiota porque, por segundos, chego a acreditar na tua aparente coragem e vontade de nos fazer mudar esta merda de vida.
Mas agora, acordo para a realidade e é como te digo: chegas a casa, olhas-me e eu travo, realmente, esta batalha sozinha. E custa. Custa mesmo muito.
Antes de voltares eu acreditava que tudo isto seria totalmente diferente.
Mas não entendo, acreditas? Não entendo porque quebraste as tuas promessas. No início éramos eu e tu, tu e eu. E ninguém nos ia conseguir separar ou derrubar, lembras-te?
E hoje... hoje sento-me na tua cama vazia, à espera que chegues novamente à casa onde sempre vivemos, mas não tenho absolutamente um único fio de esperança em mim. Porque, há meses atrás, juraste que seria tudo muito mais fácil se nos uníssemos, mas, em menos de um dia, esqueceste todas as tuas palavras de força. Custa-me a engolir isto porque tu sabes, melhor do que ninguém, que ela precisa de todo o nosso apoio, mas mesmo assim continuas a fazer de conta que esta casa, aquela onde vivemos desde sempre, continua a ser a mesma que deixaste há 8 meses atrás.
É difícil, para ti, ignorar as palavras doces que ultimamente têm aparecido naquele que (supostamente) devíamos amar acima de tudo? Para mim também é. Estabeleço com ele a mesma ligação que tu, se calhar mais fortemente, e mesmo assim, apesar do carinho que lhe tenho, esforço-me para cumprir o papel que lhe jurei [a ela] quando esta merda começou. E dói-me. Arranha-me. Corrói-me. Rasga-me. Mas não desisto. Não desistirei nunca.
Imaginas o que seria da nossa vida se todos fossemos desistindo aos poucos? Eu acho que tens medo de imaginar e é precisamente por isso que continuas a ser a mesma pessoa com ele. É por isso que cumpres o teu papel de filho exactamente da mesma maneira de sempre.
Estou cheia de medo do futuro. Estou, quase que literalmente, a morrer de pavor. Mas, enquanto eu viver, não me verás a baixar as armas nem a assumir esta guerra como perdida.
Devias fazer o mesmo. E eu gostava mesmo que fizesses o mesmo.
Os irmãos mais velhos costumam ser o exemplo a seguir, mas acho que, desta vez, não faria mal se invertêssemos os papeis.
E, apesar de tudo (e chama-me ingénua, se quiseres), deito-me a pensar que vais regressar às tuas origens e vais conseguir vencer o teu medo de o encarar. Porque, afinal, é apenas isso que te impede, não é? O medo.
Prepara-te porque a tempestade será longa e o ponto onde nos encontramos está ainda no momento mais ameno. Eu sei que vais continuar a falar e a prometer. E a voltar a falar e prometer. E sempre mais. Mais palavras, mais juras, mais planos. Às vezes sou bastante idiota porque, por segundos, chego a acreditar na tua aparente coragem e vontade de nos fazer mudar esta merda de vida.
Mas agora, acordo para a realidade e é como te digo: chegas a casa, olhas-me e eu travo, realmente, esta batalha sozinha. E custa. Custa mesmo muito.
quinta-feira
Chegaste e foi tal e qual como eu tinha imaginado.
Abracei-te como nunca na vida abracei alguém e, por momentos, quis que esse abraço se prolongasse pela eternidade. Largámo-nos e aí, depois de entender que as boas-vindas se tinham concretizado, engoli em seco e mentalizei-me, de uma vez por todas, que esse nosso abraço tinha marcado, oficialmente, o início da guerra. É irónico, não é?
Hoje foste matar as saudades todas daqueles que, como eu (ou quase como eu), se desfizeram em pedaços quando partiste. Hoje chegarás tarde a casa, para celebrar os bons velhos tempos.
O que tu não sabes é que amanhã vais enfrentar os teus velhos monstros e, talvez, descobrir que afinal até sou uma mulher forte.
Eu sei que vais tremer de medo, mas não te preocupes, enquanto eu estiver neste mundo, mais ninguém voltará a pisar-te.
Entraremos por aquela porta, os dois, juntos e só vou largar a tua mão quando voltarmos a sair. Prometo-te.
Abracei-te como nunca na vida abracei alguém e, por momentos, quis que esse abraço se prolongasse pela eternidade. Largámo-nos e aí, depois de entender que as boas-vindas se tinham concretizado, engoli em seco e mentalizei-me, de uma vez por todas, que esse nosso abraço tinha marcado, oficialmente, o início da guerra. É irónico, não é?
Hoje foste matar as saudades todas daqueles que, como eu (ou quase como eu), se desfizeram em pedaços quando partiste. Hoje chegarás tarde a casa, para celebrar os bons velhos tempos.
O que tu não sabes é que amanhã vais enfrentar os teus velhos monstros e, talvez, descobrir que afinal até sou uma mulher forte.
Eu sei que vais tremer de medo, mas não te preocupes, enquanto eu estiver neste mundo, mais ninguém voltará a pisar-te.
Entraremos por aquela porta, os dois, juntos e só vou largar a tua mão quando voltarmos a sair. Prometo-te.
segunda-feira
Falta apenas um dia
28 de Julho de 2014
Os meses passaram lentamente. Mas passaram.
Amanhã estarás, finalmente, comigo. Amanhã estarei, finalmente, contigo.
Tanto tempo passou, tantos dias sem ti, tantas horas à espera de te poder abraçar...
Amanhã chegarás e sentirás de perto a tempestade que nos tem rodeado. Não quero pensar na tua reação, mas confesso que tenho medo dela. Só quero que sejas forte como eu tenho sido, porque depois de enfrentares tantas coisas em tão pouco tempo, tens de conseguir enfrentar a guerra que está para vir. Acredito em ti e na tua força.
Só mais umas horas e voltarei a sentir o teu cheiro, a ouvir a tua voz sem qualquer outro ruído de fundo, a ver o teu sorriso que é tão igual ao meu. E ainda bem que é assim. De todos os sorrisos do mundo, escolheria sempre o teu, por só a ti te pertencer e por ser o único capaz de fazer esquecer todos os meus medos.
E sabes? Quando te fui levar ao aeroporto, naquela manhã fria de Inverno, a tua imagem rumo ao futuro acendeu-me a esperança na humanidade, e a imagem do nosso reencontro, apesar de distante, deu-me força para esperar por ti.
Hoje deixo a força de lado e fico aqui sentada a olhar o céu. Está calor, mas não importa.
Mais umas horas e estás comigo. E só por isso, hoje o Mundo parece-me um lugar mesmo bonito. Nem consigo imaginar quão bonito será o amanhã! :)
domingo
Os meses vão passando, mas parece cada vez mais longe o dia em que te voltarei a ver.
Precisava de ti porque sempre soubeste preencher o vazio que em mim se instala nos piores momentos.
Sei que estás aí a tentar construir uma nova vida e por isso esforço-me imenso para que sintas que estou feliz com todas as decisões que tomaste.
Mas não estou feliz. Não estou nada feliz.
Felicidade, para mim, é ter-te comigo.
Precisava de ti porque sempre soubeste preencher o vazio que em mim se instala nos piores momentos.
Sei que estás aí a tentar construir uma nova vida e por isso esforço-me imenso para que sintas que estou feliz com todas as decisões que tomaste.
Mas não estou feliz. Não estou nada feliz.
Felicidade, para mim, é ter-te comigo.
sexta-feira
Sei que fugiste da batalha que inconscientemente te travaram. E não foste cobarde.
Às vezes penso que batalhas é o que mais tens encontrado por aí. Daquelas que, por serem tão dolorosas, te fazem querer desistir a cada momento.Estou certa, bem sei.
Mas não desistes por nada. És um guerreiro, ainda que não o saibas.
A coragem que em ti existe, e a esperança que faz nascer em mim ainda mais esperança, têm sido os panos que me mantêm presa - ainda que suspensa no ar- à visão futura de te ver comigo.
Mantém-te forte. Toda a minha força está contigo, agora e sempre.
Às vezes penso que batalhas é o que mais tens encontrado por aí. Daquelas que, por serem tão dolorosas, te fazem querer desistir a cada momento.Estou certa, bem sei.
Mas não desistes por nada. És um guerreiro, ainda que não o saibas.
A coragem que em ti existe, e a esperança que faz nascer em mim ainda mais esperança, têm sido os panos que me mantêm presa - ainda que suspensa no ar- à visão futura de te ver comigo.
Mantém-te forte. Toda a minha força está contigo, agora e sempre.
«There's a battle ahead
Many battles are lost
But you'll never see the end of the road
While you're travelling with me»
terça-feira
Um dia explico-te porque choro sempre que ouço esta música
«When there's love inside
I swear I'll always be strong
then there's a reason why.
I'll prove to you we belong
I'll be the wall that protects you
from the wind and the rain,
from the hurt and pain.»
I swear I'll always be strong
then there's a reason why.
I'll prove to you we belong
I'll be the wall that protects you
from the wind and the rain,
from the hurt and pain.»
segunda-feira
Dói ver a mãe, todos os dias, a correr para casa para falar contigo pelo Skype. Dói ainda mais quando não estás online e ela fica sentada, durante uma eternidade, quieta, à espera que lhe digas um Olá.
Costumas demorar, mas nós sabemos que não fazes por mal, porque as nossas despedidas são muito mais demoradas do que os teus atrasos.
Amo-te cada vez mais. Era só para saberes.
Costumas demorar, mas nós sabemos que não fazes por mal, porque as nossas despedidas são muito mais demoradas do que os teus atrasos.
Amo-te cada vez mais. Era só para saberes.
domingo
Domingo vazio
Hoje fui à bola sem ti. O estádio estava cheio e as pessoas gritavam, mas por mim passava um silêncio aterrador. Não ouvi os teus gritos, não ouvi os teus cânticos, não festejaste comigo os três golos.
No entanto, estás sempre em mim quando vou à bola ao domingo, porque esta paixão que tenho e que parece crescer todos os dias foi-me dada apenas por ti.
No entanto, estás sempre em mim quando vou à bola ao domingo, porque esta paixão que tenho e que parece crescer todos os dias foi-me dada apenas por ti.
sábado
Saudade
18 de Janeiro de 2014
A falta que me fazes continua a doer-me. A saudade consome a minha alma e eu já nem sei qual é o teu cheiro.
Passou uma semana e não são normais estes sintomas. Ver-te faz parte dos meus dias, mas tocar-te está longe da realidade.
Hoje fui ao teu quarto buscar uma das camisolas que deixaste para trás e abracei-a. Conseguiste sentir o calor do meu abraço? É que eu as vezes sinto-te a beijares a minha testa e a acalmares a tempestade que há em mim.
Carta segunda
Madrugada de 10 de Janeiro de 2014
Não sei muito bem como começar.Conheces-me e sabes perfeitamente como é difícil para mim começar as coisas. Sabes que penso em coisas que não cabem a ninguém, que avalio situações, invento cenários, crio problemas, tão meus, mas que te afetam tanto.
Nunca tive a oportunidade de te dizer que és a pessoas que mais amo neste mundo. Ou se calhar até tive. Se calhar deixei simplesmente essa oportunidade passar, como tenho deixado passar a vida... Mas eu acho que, no fundo, sabes muito bem aquilo que és para mim. Melhor do que eu. Melhor do que qualquer ser deste Universo.
Amanha partes e metade de mim parte contigo. As malas estão prontas para te acompanhar. O que levas nelas? Dizem que a saudade pesa. E muito. Tem cuidado contigo. Deve ser por isso que dificilmente conseguem ser movidas do chão...
A mãe vai chorar amanhã. Eu tenho chorado por dentro todos os dias. Não quero que neste nosso adeus, sintas a minha cara molhada. Não quero que leves de mim a imagem de uma fraca que não suporta ver as pessoas partir. Apesar de eu ser precisamente assim: uma fraca.
Amanha partes e dir-te-ei adeus pelo vidro do aeroporto. Aí sim, estarei a chorar, mas, felizmente, não vais conseguir ver-me.
Nunca pensei que fosse tão lixado afastar-se de alguém. E é talvez por seres tu e não outra pessoa qualquer, que me doi a alma sempre que te olho e penso que é o nosso último momento a sós. E és bonito, sabias?
O instinto faz destas coisas. O ser humano tem mecanismos que às vezes, quase sempre, todos os dias, até, me irritam profundamente. Porque eu sabia que te ia amar, mesmo antes de te saber. Porque é que teve de ser assim?
Amanhã partes e as últimas horas que nos restam vão voar mais rápido que o avião que te levará de mim. Tantos anos juntos, tão poucos anos juntos, talvez. Não devias partir neste momento.
Por favor, não vás. Fica comigo. Tenho toda a primavera da vida para viver, quero que a vivas comigo. Quero tanto que a vivas comigo.
Carta Primeira
10 de Janeiro de 2014
Janeiro ainda mal nos cumprimentou e já vais partir.Escrevo-te sentada, no mesmo sítio de sempre, enquanto fazes as malas. Uma parede nos separa.Dez anos nos separam. Talvez se fosse mais velha, eu pudesse ir contigo. Talvez se o fado tivesse sido mais teu amigo, tu pudesses ficar comigo. Mas ficar durante aquele espaço de tempo a que chamamos "para sempre".
E sou uma parva, sabes? Só consigo dar valor quando estou a perder o que mais amo. Se pelo menos pudesse ter-te mostrado aquilo que és para mim...
Não chove lá fora, mas a minha alma é um dilúvio.
Quero-te aqui para sempre. Fazes as malas e eu sinto-me apunhalada pela minha própria Pátria. O que doi mais? Ver-te a dobrar roupa, enquanto o teu quarto fica vazio, ou ser apunhalada?
E a casa está ruidosa e em movimento. Em mim vai nascendo o vazio e o silêncio de quem vai passar uma vida só.
Porque sem ti, mesmo acompanhada, estarei sempre só.
A música está no máximo, mas os meus ouvidos só captam o abrir e fechar das tuas gavetas. Se as trancasse, ficarias comigo?
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